http://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2014/10/16465-50747-1-PB.pdf
LETB92
QUESTÕES TEÓRICAS DA CONTEMPORANEIDADE
segunda-feira, 30 de maio de 2016
segunda-feira, 23 de maio de 2016
ENEGRECER O FEMINISMO: A SITUAÇÃO DA MULHER NEGRA NA AMÉRICA LATINA A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA DE GÊNERO, por Sueli Carneiro
No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos
contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de
todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da
democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as últimas conseqüências.
Essa violência sexual colonial é, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e
raça presentes em nossas sociedades, configurando aquilo que Ângela Gilliam define
como “a grande teoria do esperma em nossa formação nacional”, através da qual,
segundo Gilliam: “O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional; a
desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violência sexual contra as
mulheres negras foi convertida em um romance”.
O que poderia ser considerado como história ou reminiscências do período colonial
permanece, entretanto, vivo no imaginário social e adquire novos contornos e funções em
uma ordem social supostamente democrática, que mantém intactas as relações de
gênero segundo a cor ou a raça instituídas no período da escravidão. As mulheres negras
tiveram uma experiência histórica diferenciada que o discurso clássico sobre a opressão
da mulher não tem reconhecido, assim como não tem dado conta da diferença qualitativa
que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem na identidade feminina das mulheres
negras.
Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção
paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós,
mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente
majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos
tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam
durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras,
prostitutas... Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as
mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de
mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de
senhores de engenho tarados. São suficientemente conhecidas as condições históricas
nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das
mulheres negras em particular. Sabemos, também, que em todo esse contexto de
conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos
momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor. Hoje, empregadas
domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.
Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar, da musa idolatrada dos poetas,
de que mulheres estamos falando? As mulheres negras fazem parte de um contingente
de mulheres que não são rainhas de nada, que são retratadas como antimusas da
sociedade brasileira, porque o modelo estético de mulher é a mulher branca. Quando
falamos em garantir as mesmas oportunidades para homens e mulheres no mercado de
trabalho, estamos garantindo emprego para que tipo de mulher? Fazemos parte de um
contingente de mulheres para as quais os anúncios de emprego destacam a frase: “Exigese
boa aparência”.
Quando falamos que a mulher é um subproduto do homem, posto que foi feita da costela
de Adão, de que mulher estamos falando? Fazemos parte de um contingente de mulheres
originárias de uma cultura que não tem Adão. Originárias de uma cultura violada,
folclorizada e marginalizada, tratada como coisa primitiva, coisa do diabo, esse também
um alienígena para a nossa cultura. Fazemos parte de um contingente de mulheres
ignoradas pelo sistema de saúde na sua especialidade, porque o mito da democracia
racial presente em todas nós torna desnecessário o registro da cor dos pacientes nos
formulários da rede pública, informação que seria indispensável para avaliarmos as
condições de saúde das mulheres negras no Brasil, pois sabemos, por dados de outros
países, que as mulheres brancas e negras apresentam diferenças significativas em
termos de saúde.
Portanto, para nós se impõe uma perspectiva feminista na qual o gênero seja uma
variável teórica, mas como afirmam Linda Alcoff e Elizabeth Potter, que não “pode ser
separada de outros eixos de opressão” e que não “é possível em uma única análise. Se o
feminismo deve liberar as mulheres, deve enfrentar virtualmente todas as formas de
opressão”. A partir desse ponto de vista, é possível afirmar que um feminismo negro,
construído no contexto de sociedades multirraciais, pluriculturais e racistas – como são as
sociedades latino-americanas – tem como principal eixo articulador o racismo e seu
impacto sobre as relações de gênero, uma vez que ele determina a própria hierarquia de
gênero em nossas sociedades.
Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas
da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia
masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse
sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo estabelece a inferioridade
social dos segmentos negros da população em geral e
das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das
mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas. Nessa perspectiva,
a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando
novos contornos para a ação política feminista e anti-racista, enriquecendo tanto a
discussão da questão racial, como a questão de gênero na sociedade brasileira.
Esse novo olhar feminista e anti-racista, ao integrar em si tanto as tradições de luta do
movimento negro como a tradição de luta do movimento de mulheres, afirma essa nova
identidade política decorrente da condição específica do ser mulher negra. O atual
movimento de mulheres negras, ao trazer para a cena política as contradições resultantes
da articulação das variáveis de raça, classe e gênero, promove a síntese das bandeiras
de luta historicamente levantadas pelos movimento negro e de mulheres do país,
enegrecendo de um lado, as reivindicações das mulheres, tornando-as assim mais
representativas do conjunto das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo a
feminização das propostas e reivindicações do movimento negro. Enegrecer o movimento
feminista brasileiro tem significado, concretamente, demarcar e instituir na agenda do
movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo,
das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher
pela introdução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de
violência sofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzir
a discussão sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre
a população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas na
área de saúde; instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de trabalho
como a “boa aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégios entre as mulheres
brancas e negras.
Tem-se, ainda, estudado e atuado politicamente sobre os aspectos éticos e eugênicos
colocados pelos avanços das pesquisas nas áreas de biotecnologia, em particular da
engenharia genética. Um exemplo concreto refere-se, por exemplo, às questões de saúde
e de população. Se, historicamente, as práticas genocidas tais como a violência policial, o
extermínio de crianças, a ausência de políticas sociais que assegurem o exercício dos
direitos básicos de cidadania têm sido objetos prioritários da ação política dos
movimentos negros, os problemas colocados hoje pelos temas de saúde e de população
nos situam num quadro talvez ainda mais alarmante em relação aos processos de
genocídio do povo negro no Brasil.
Portanto, esse novo contexto de redução populacional, fruto da esterilização maciça –
aliada tanto à progressão da AIDS quanto do uso da droga entre a nossa população – e
das novas biotecnologias, em particular a engenharia genética, com as possibilidades que
ela oferece de práticas eugênicas, constitui novo e alarmante desafio contra o qual o
conjunto do movimento negro precisa atuar.
A importância dessas questões para as populações consideradas descartáveis, como são
os negros, e o crescente interesse dos organismos internacionais pelo controle do
crescimento dessas populações, levou o movimento de mulheres negras a desenvolver
uma perspectiva internacionalista de luta. Essa visão internacionalista está promovendo a
diversificação das temáticas, com o desenvolvimento de novos acordos e associações e a
ampliação da cooperação interétnica. Cresce ente as mulheres negras a consciência de
que o processo de globalização, determinado pela ordem neoliberal que, entre outras
coisas, acentua o processo de feminização da pobreza, coloca a necessidade de
articulação e intervenção da sociedade civil a nível mundial. Essa nova consciência tem
nos levado ao desenvolvimento de ações regionais no âmbito da América Latina, do
Caribe, e com as mulheres negras dos países do primeiro mundo, além da participação
crescente nos fóruns internacionais, nos quais governos e sociedade civil se defrontam e
definem a inserção dos povos terceiro-mundistas no terceiro milênio.
Essa intervenção internacional, em especial nas conferências mundiais convocadas pela
ONU a partir da década de 1990, tem nos permitido ampliar o debate sobre a questão
racial a nível nacional e internacional e sensibilizar movimentos, governos e a ONU para a
inclusão da perspectiva anti-racista e de respeito à diversidade em todos os seus temas. A
partir dessa perspectiva, atuamos junto à Conferência Internacional sobre População e
Desenvolvimento, realizada no Cairo, em 1994, em relação à qual as mulheres negras
operaram a partir da idéia de que “em tempos de difusão do conceito de populações
supérfluas, liberdade reprodutiva é essencial para as etnias discriminadas para barrar as
políticas controladoras e racistas”.
Assim, estivemos em Viena, na Conferência de Direitos Humanos, da qual saiu o
compromisso sugerido pelo governo brasileiro, de realização de uma conferência mundial
sobre racismo e outra sobre imigração, para antes do ano 2000. Atuamos no processo de
preparação da Conferência de Beijing, durante o qual foi realizado um conjunto de ações
através das quais é possível medir o crescimento da temática racial no movimento de
mulheres do Brasil e no mundo. Vale destacar que a Conferência de Viena assumiu que
os direitos da mulher são direitos humanos, o que está consubstanciado na Declaração e
no Programa de Ação de Viena, que dão grande destaque à questão da mulher e pregam
a sua plena participação, em condições de igualdade, na vida política, civil, econômica,
social e cultural nos níveis nacional, regional e internacional, e a erradicação de todas as
formas de discriminação sexual, considerando-as objetivos prioritários da comunidade
internacional.
Se a Declaração de Viena avança na compreensão da universalidade dos direitos
humanos das mulheres, para nós mulheres não brancas era fundamental uma referência
explícita à violação dos direitos da mulher baseada na discriminação racial. Entendíamos
que a Conferência de Beijing deveria fazer uma referência explícita à opressão sofrida por
um contingente significativo de mulheres em função da origem étnica ou racial. Essas
conferências mundiais se tornaram espaços importantes no processo de reorganização
do mundo após a queda do muro de Berlim e constituem hoje fóruns de recomendações
de políticas públicas para o mundo.
O movimento feminista internacional tem operado nesses fóruns como o lobby mais
eficiente entre os segmentos discriminados do mundo. Isso explica o avanço da
Conferência de Direitos Humanos de Viena em relação às questões da mulher, assim
como os avanços registrados na Conferência do Cairo e na Conferência das Nações
Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), realizada no Rio de Janeiro
em 1992. Nos esforços desenvolvidos pelas mulheres na Conferência de Beijing, um dos
resultados foi que o Brasil, pela primeira vez na diplomacia internacional, obstruiu uma
reunião do G-77, grupo dos países em desenvolvimento do qual faz parte, para discordar
sobre a retirada do termo étnico-racial do Artigo 32 da declaração de Beijing, questão
inegociável para as mulheres negras do Brasil e dos países do Norte. A firmeza da
posição brasileira assegurou que a redação final do Artigo 32 afirmasse a necessidade de
“intensificar esforços para garantir o desfrute, em condições de igualdade, de todos os
direitos humanos e liberdades fundamentais a todas as mulheres e meninas que
enfrentam múltiplas barreiras para seu desenvolvimento e seu avanço devido a fatores
como raça, idade, origem étnica, cultura, religião...” O próximo passo será a monitoração
desses acordos por parte de nossos governos.
Conclusões
A origem branca e ocidental do feminismo estabeleceu sua hegemonia na equação das
diferenças de gênero e tem determinado que as mulheres não brancas e pobres, de todas
as partes do mundo, lutem para integrar em seu ideário as especificidades raciais,
étnicas, culturais, religiosas e de classe social. Até onde as mulheres brancas avançaram
nessas questões? As alternativas de esquerda, de direita e de centro se constroem a
partir desses paradigmas instituídos pelo feminismo que, segundo Lélia Gonzalez,
apresentam dois tipos de dificuldades para as mulheres negras: por um lado, a inclinação
eurocentrista do feminismo brasileiro constitui um eixo articulador a mais da democracia
racial e do ideal de branqueamento, ao omitir o caráter central da questão da raça nas
hierarquias de gênero e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental)
para o conjunto das mulheres, sem mediá-los na base da interação entre brancos e não
brancos; por outro lado, revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra
ao negar “toda uma história feita de resistência e de lutas, em que essa mulher tem sido
protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral (que nada tem a ver
com o eurocentrismo desse tipo de feminismo)” . Nesse contexto, quais seriam os novos
conteúdos que as mulheres negras poderiam aportar à cena política para além do “toque
de cor” nas propostas de gênero? A feminista negra norte-americana Patricia Collins
argumenta que o pensamento feminista negro seria “(...) um conjunto de experiências e
idéias compartilhadas por mulheres afro-americanas, que oferece um ângulo particular de
visão de si, da comunidade e da sociedade... que envolve interpretações teóricas da
realidade das mulheres negras por aquelas que a vivem...” A partir dessa visão, Collins
elege alguns “temas fundamentais que caracterizariam o ponto de vista feminista negro”.
Entre eles, se destacam: o legado de uma história de luta, a natureza interconectada de
raça, gênero e classe e o combate aos estereótipos ou “imagens de autoridade”.
Acompanhando o pensamento de Patricia Collins, Luiza Barros usa como paradigma a
imagem da empregada doméstica como elemento de análise da condição de
marginalização da mulher negra e, a partir dela, busca encontrar especificidades capazes
de rearticular os pontos colocados pela feminista norte-americana. Conclui, então, que
“essa marginalidade peculiar é o que estimula um ponto de vista especial da mulher
negra, (permitindo) uma visão distinta das contradições nas ações e ideologia do grupo
dominante”. “A grande tarefa é potencializá-la afirmativamente através da reflexão e da
ação política”.
O poeta negro Aimé Cesaire disse que “as duas maneiras de perder-se são: por
segregação, sendo enquadrado na particularidade, ou por diluição no universal”. A utopia
que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da
dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade. Ser
negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem
ser somente mulher negra. Alcançar a igualdade de direitos é converter-se em um ser
humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de
raça e de gênero. Esse é o sentido final dessa luta.
Acredito que nessa década, as mulheres negras brasileiras encontraram seu caminho de
autodeterminação política, soltaram as suas vozes, brigaram por espaço e representação
e se fizeram presentes em todos os espaços de importância para o avanço da questão da
mulher brasileira hoje. Foi sua temática a que mais cresceu politicamente no movimento
de mulheres do Brasil, integrando, espera-se que definitivamente, a questão racial no
movimento de mulheres. O que impulsiona essa luta é a crença “na possibilidade de
construção de um modelo civilizatório humano, fraterno e solidário, tendo como base os
valores expressos pela luta anti-racista, feminista e ecológica, assumidos pelas mulheres
negras de todos os continentes, pertencentes que somos à mesma comunidade de
destinos”. Pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença
seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade.
quarta-feira, 4 de maio de 2016
Feminismo e literatura no Brasil - CONSTÂNCIA LIMA DUARTE
Por que a ciência nos é inútil?
Porque somos excluídas dos encargos públicos.
E por que somos excluídas dos cargos públicos?
Porque não temos ciência.
Nísia Floresta
Introdução
ESTA REFLEXÃO é fruto de um projeto de pesquisa intitulado “Literatura e
feminismo no Brasil: trajetórias e diálogos”, que ora desenvolvo. A idéia é
antiga e sempre esteve em minhas investigações, pois, à medida que delineava o percurso das mulheres na literatura brasileira, buscava sempre identificar
os pontos comuns com o movimento feminista e mais representativos de um
possível diálogo entre eles. Neste projeto busco – em ensaios, romances e poemas – a interiorização da perspectiva feminista, sua inserção na prática literária de
nossas escritoras e, ainda, a historicização do conceito. O presente texto contém
os primeiros resultados da pesquisa, assim como uma proposta de compreensão
do movimento feminista no país.
O tabu do feminismo
Diferente do que ocorre em outros países, existe entre nós uma forte resistência em torno da palavra “feminismo”. Se lembrarmos que feminismo foi um
movimento legítimo que atravessou várias décadas, e que transformou as rela-
ções entre homens e mulheres, torna-se (quase) inexplicável o porquê de sua
desconsideração pelos formadores de opinião pública. Pode-se dizer que a vitó-
ria do movimento feminista é inquestionável quando se constata que suas bandeiras mais radicais tornaram-se parte integrante da sociedade, como, por exemplo, mulher freqüentar universidade, escolher profissão, receber salários iguais,
candidatar-se ao que quiser.... Tudo isso, que já foi um absurdo sonho utópico,
faz parte de nosso dia a dia e ninguém nem imagina mais um mundo diferente.
Mas se esta foi a vitória do movimento feminista, sua grande derrota, a
meu ver, foi ter permitido que um forte preconceito isolasse a palavra, e não ter
conseguido se impor como motivo de orgulho para a maioria das mulheres. A
reação desencadeada pelo antifeminismo foi tão forte e competente, que não só
promoveu um desgaste semântico da palavra, como transformou a imagem da
feminista em sinônimo de mulher mal amada, machona, feia e, a gota d’água, o
oposto de “feminina”. Provavelmente, por receio de serem rejeitadas ou de ficarem “mal vistas”, muitas de nossas escritoras, intelectuais, e a brasileira de modo
geral, passaram enfaticamente a recusar tal título. Também é uma derrota do
feminismo permitir que as novas gerações desconheçam a história das conquistas
femininas, os nomes das pioneiras, a luta das mulheres de antigamente que, de
peito aberto, denunciaram a discriminação, por acreditarem que, apesar de tudo,
era possível um relacionamento justo entre os sexos.
As ondas do feminismo
Mas se a história do feminismo não é muito conhecida, deve-se também ao
fato de ser pouco contada. A bibliografia, além de limitada, costuma abordar
fragmentariamente os anos de 1930 e a luta pelo voto, ou os anos de 1970 e as
conquistas mais recentes. Na maior parte das vezes, entende-se como feminismo
apenas o movimento articulado de mulheres em torno de determinadas bandeiras; e tudo o mais fica relegado a notas de rodapé.
Penso que o “feminismo” poderia ser compreendido em um sentido amplo, como todo gesto ou ação que resulte em protesto contra a opressão e a
discriminação da mulher, ou que exija a ampliação de seus direitos civis e políticos, seja por iniciativa individual, seja de grupo. Somente então será possível
valorizar os momentos iniciais desta luta – contra os preconceitos mais primários
e arraigados – e considerar aquelas mulheres, que se expuseram à incompreensão
e à crítica, nossas primeiras e legítimas feministas.
Considerando que essa história teve início nas primeiras décadas do século
XIX – o momento em que as mulheres despertam do “sono letárgico em que
jaziam”, segundo Mariana Coelho1 –, quero sugerir a existência de pelo menos
quatro momentos áureos na história do feminismo brasileiro2 . Longe de serem
estanques, tais momentos conservam uma movimentação natural em seu interior,
de fluxo e refluxo, e costumam, por isso, ser comparados a ondas, que começam
difusas e imperceptíveis e, aos poucos (ou de repente) se avolumam em direção
ao clímax – o instante de maior envergadura, para então refluir numa fase de
aparente calmaria, e novamente recomeçar.
As décadas em que esses momentos-onda teriam obtido maior visibilidade,
na minha avaliação, ou seja, em que estiveram mais próximos da concretização
de suas bandeiras, seriam em torno de 1830, 1870, 1920 e 1970. Foram necessá-
rios, portanto, cerca de cinqüenta anos entre uma e outra, com certeza ocupados
por um sem número de pequenas movimentações de mulheres, para permitir
que as forças se somassem e mais uma vez fossem capazes de romper as barreiras
da intolerância, e abrir novos espaços.3 Em cada um deles, identifico algumas
escritoras feministas, à guisa de ilustração.
Primeira onda: as primeiras letras
Quando começa o século XIX, as mulheres brasileiras, em sua grande maioria, viviam enclausuradas em antigos preconceitos e imersas numa rígida indigência cultural. Urgia levantar a primeira bandeira, que não podia ser outra senão o direito básico de aprender a ler e a escrever (então reservado ao sexo masculino).
A primeira legislação autorizando a abertura de escolas públicas femininas data
de 1827, e até então as opções eram uns poucos conventos, que guardavam as
meninas para o casamento, raras escolas particulares nas casas das professoras, ou
o ensino individualizado, todos se ocupando apenas com as prendas domésticas.
E foram aquelas primeiras (e poucas) mulheres que tiveram uma educação diferenciada, que tomaram para si a tarefa de estender as benesses do conhecimento
às demais companheiras, e abriram escolas, publicaram livros, enfrentaram a opinião corrente que dizia que mulher não necessitava saber ler nem escrever. Concordo com Zahidé Muzart quando afirma que
[...] no século XIX, as mulheres que escreveram, que desejaram viver da
pena, que desejaram ter uma profissão de escritoras, eram feministas, pois só
o desejo de sair do fechamento doméstico já indicava uma cabeça pensante e
um desejo de subversão. E eram ligadas à literatura. Então, na origem, a
literatura feminina no Brasil esteve ligada sempre a um feminismo incipiente4.
O nome que se destaca nesse momento é o de Nísia Floresta Brasileira
Augusta (1810-1885), nascida no Rio Grande do Norte, que residiu em Recife,
Porto Alegre e Rio de Janeiro, antes de se mudar para a Europa, e que teria sido
uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a
publicar textos em jornais da chamada “grande” imprensa. Seu primeiro livro,
intitulado Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, é também o
primeiro no Brasil a tratar do direito das mulheres à instrução e ao trabalho, e a
exigir que elas fossem consideradas inteligentes e merecedoras de respeito. Este
livro, inspirado principalmente em Mary Wollstonecraft (Nísia declarou ter feito
uma “tradução livre” de Vindications of the Rights of Woman), mas também nos
escritos de Poulain de la Barre, de Sophie, e nos famosos artigos da “Declaração
dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, de Olympe de Gouges, deve, ainda assim,
ser considerado o texto fundante do feminismo brasileiro, pois se trata de uma
nova escritura ainda que inspirado na leitura de outros. Pode também ser lido
como uma resposta brasileira ao texto inglês: nossa autora se colocando em pé de
igualdade com a Wollstonecraft e o pensamento europeu, e cumprindo o importante papel de elo entre as idéias estrangeiras e a realidade nacional.
Nísia Floresta identifica na herança cultural portuguesa a origem do preconceito no Brasil e ridiculariza a idéia dominante da superioridade masculina.
Homens e mulheres, afirma, “são diferentes no corpo, mas isto não significa
diferenças na alma”. Ou as desigualdades que resultam em inferioridade “vêm
da educação e circunstâncias de vida”, argumenta, antecipando a noção de gênero como uma construção sociocultural. Segundo a autora, os homens se beneficiavam com a opressão feminina, e somente o acesso à educação permitiria às
mulheres tomarem consciência de sua condição inferiorizada. São idéias suas:
Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir
nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. Tudo isto é admirável e mesmo um mul-
çumano não poderá avançar mais no meio de um serralho de escravas5 .
Nísia Floresta não realiza, insisto, uma tradução no sentido convencional
do texto da feminista, ou de outros escritores europeus, como muitos acreditaram. Na verdade, ela empreende uma espécie de antropofagia libertária: assimila
as concepções estrangeiras e devolve um produto pessoal, em que cada palavra é
vivida e os conceitos surgem extraídos da própria experiência6 .
E aqui está a marca diferenciadora deste momento histórico: a nossa primeira onda, mais que todas as outras, vem de fora, de além mar, não nasce entre
nós. E Nísia Floresta é importante principalmente por ter colocado em língua
portuguesa o clamor que vinha da Europa, e feito a tradução cultural das novas
idéias para o contexto nacional, pensando na mulher e na história brasileira. Ao
se apropriar do texto europeu para superá-lo, ela se insere numa importante
linhagem antropofágica da literatura brasileira, que desde Gregório de Matos
estava inaugurada. Na deglutição geral das idéias estrangeiras, era comum promover-se uma acomodação das mesmas ao cenário nacional, e é o que ela faz.
Tanto que o título de seu livro contém não apenas a idéia dos rights of woman,
mas também “a injustiça dos homens”.
No último capítulo de Direitos das mulheres e injustiça dos homens, encontra-se o desvio mais acentuado em relação aos originais europeus. Após longa
argumentação a respeito da capacidade e da superioridade femininas, Nísia termina dizendo que não tinha intenção de “revoltar pessoa alguma contra os homens”, e muito menos “transformar a ordem presente das coisas”. Ou seja: não
endossa a revolução proposta pelos pensadores, e sentia-se satisfeita em provar
que seu sexo “não é tão desprezível”, e que as mulheres eram “capazes de tanta
grandeza d’alma como os melhores desse sexo orgulhoso”. Esse recuo (que à
primeira vista poderia parecer uma contradição) merece ser analisado também
como estratégia e consciência da realidade. Afinal, o momento brasileiro impunha não o clamar por revoluções, mas por pequenas e necessárias mudanças no
comportamento masculino com relação à mulher. A autora revela (apesar de sua
pouca idade) ter consciência da defasagem cultural, social e política existente
entre a Europa e o Brasil. Enquanto lá as vindicações se faziam sob a forma de
crítica a uma educação já existente, aqui as solicitações eram ainda as primárias,
pois mesmo a alfabetização mais superficial esbarrava em toda sorte de preconceitos. Nossas mulheres precisavam, primeiro, ser consideradas seres pensantes,
para então, depois, pleitear a emancipação política7 .
E, em 1832, eram raras as mulheres brasileiras educadas e, em menor nú-
mero ainda, as escritoras. A mineira Beatriz Francisca de Assis Brandão (1779-
1860), e as gaúchas Clarinda da Costa Siqueira (1818-1867) e Delfina Benigna
da Cunha (1791-1857), eram algumas dessas exceções hoje conhecidas8 . Mesmo
entre os chamados “jornais femininos”, apenas existiam uns poucos periódicos
dirigidos por homens mais sensíveis às mudanças do comportamento social, e
que se apressavam em oferecer publicações especialmente pasteurizadas para o
público feminino9 .
Também em outros livros Nísia Floresta destaca o tema da educação, como
em Conselhos à minha filha (1842), A mulher (1859) e Opúsculo humanitário
(1853). Neste último, a autora revela o quanto conhecia da história da mulher
em diversos países, avalia as escolas femininas de seu tempo, e ainda expõe um
projeto educacional para tirar as mulheres da ignorância e da ociosidade. Nísia
defende que o progresso (ou o atraso) de uma sociedade deve ser avaliado pela
importância atribuída às mulheres, como também inúmeros filósofos e pensadores, o que vêm reiterar seu constante diálogo com o pensamento mais avançado
de seu tempo.
Anos depois, em Porto Alegre, uma jovem escritora, Ana Eurídice Eufrosina
de Barandas, publicava o livro A philosopha por amor (1845), que trazia, entre
contos e versos, uma pequena peça teatral a respeito das reivindicações femininas. Em sua argumentação, a personagem Mariana repete inúmeras idéias que se
encontram no primeiro livro de Nísia Floresta (por sinal reeditado em Porto
Alegre, em 1833), tais como a convicção na capacidade da mulher para exercer
cargos de comando, sua competência para estudar e o discernimento para opinar
sobre momentos importantes do país, no caso, a Revolução Farroupilha10 .
Apenas em meados do século XIX começam a surgir os primeiros jornais
dirigidos por mulheres. Os críticos chegam junto, considerando-a desde sempre
uma imprensa secundária, inconsistente e supérflua, pois destinava-se ao segundo sexo... Mas, ainda assim, veremos o quanto aquelas páginas artesanais lograram avançar em direção à construção da identidade feminina. Em 1852, o público leitor do Rio de Janeiro deve ter se surpreendido com o lançamento do Jornal
das senhoras, de Joana Paula Manso de Noronha, uma argentina radicada no Rio
de Janeiro. O editorial do primeiro número expõe o firme propósito de incentivar as mulheres a se ilustrarem e a buscarem um “melhoramento social e a emancipação moral”. Joana Manso acreditava na inteligência feminina e queria convencer a todos que “Deus deu à mulher uma alma e a fez igual ao homem e sua
companheira”. Para ela, a elite brasileira não podia ficar isolada “quando o mundo inteiro marcha ao progresso” e “tende ao aperfeiçoamento moral e material
da sociedade”. Como Nísia Floresta, Joana Manso também acusava os homens de
egoísmo por considerarem suas mulheres apenas como “crianças mimadas”, ou
“sua propriedade”, ou “bonecas” disponíveis ao prazer masculino. O pioneirismo
d”O jornal das senhoras, e suas colaboradoras tímidas e anônimas, representaram, ainda assim, um decisivo passo na longa trajetória das mulheres em direção
à superação de seus receios e conscientização de direitos.
Outra escritora importante foi Júlia de Albuquerque Sandy Aguiar, editora
de O belo sexo, publicado no Rio de Janeiro, em 1862. No primeiro número ela
C O N S T Â N C I A L I M A D