Por que a ciência nos é inútil?
Porque somos excluídas dos encargos públicos.
E por que somos excluídas dos cargos públicos?
Porque não temos ciência.
Nísia Floresta
Introdução
ESTA REFLEXÃO é fruto de um projeto de pesquisa intitulado “Literatura e
feminismo no Brasil: trajetórias e diálogos”, que ora desenvolvo. A idéia é
antiga e sempre esteve em minhas investigações, pois, à medida que delineava o percurso das mulheres na literatura brasileira, buscava sempre identificar
os pontos comuns com o movimento feminista e mais representativos de um
possível diálogo entre eles. Neste projeto busco – em ensaios, romances e poemas – a interiorização da perspectiva feminista, sua inserção na prática literária de
nossas escritoras e, ainda, a historicização do conceito. O presente texto contém
os primeiros resultados da pesquisa, assim como uma proposta de compreensão
do movimento feminista no país.
O tabu do feminismo
Diferente do que ocorre em outros países, existe entre nós uma forte resistência em torno da palavra “feminismo”. Se lembrarmos que feminismo foi um
movimento legítimo que atravessou várias décadas, e que transformou as rela-
ções entre homens e mulheres, torna-se (quase) inexplicável o porquê de sua
desconsideração pelos formadores de opinião pública. Pode-se dizer que a vitó-
ria do movimento feminista é inquestionável quando se constata que suas bandeiras mais radicais tornaram-se parte integrante da sociedade, como, por exemplo, mulher freqüentar universidade, escolher profissão, receber salários iguais,
candidatar-se ao que quiser.... Tudo isso, que já foi um absurdo sonho utópico,
faz parte de nosso dia a dia e ninguém nem imagina mais um mundo diferente.
Mas se esta foi a vitória do movimento feminista, sua grande derrota, a
meu ver, foi ter permitido que um forte preconceito isolasse a palavra, e não ter
conseguido se impor como motivo de orgulho para a maioria das mulheres. A
reação desencadeada pelo antifeminismo foi tão forte e competente, que não só
promoveu um desgaste semântico da palavra, como transformou a imagem da
feminista em sinônimo de mulher mal amada, machona, feia e, a gota d’água, o
oposto de “feminina”. Provavelmente, por receio de serem rejeitadas ou de ficarem “mal vistas”, muitas de nossas escritoras, intelectuais, e a brasileira de modo
geral, passaram enfaticamente a recusar tal título. Também é uma derrota do
feminismo permitir que as novas gerações desconheçam a história das conquistas
femininas, os nomes das pioneiras, a luta das mulheres de antigamente que, de
peito aberto, denunciaram a discriminação, por acreditarem que, apesar de tudo,
era possível um relacionamento justo entre os sexos.
As ondas do feminismo
Mas se a história do feminismo não é muito conhecida, deve-se também ao
fato de ser pouco contada. A bibliografia, além de limitada, costuma abordar
fragmentariamente os anos de 1930 e a luta pelo voto, ou os anos de 1970 e as
conquistas mais recentes. Na maior parte das vezes, entende-se como feminismo
apenas o movimento articulado de mulheres em torno de determinadas bandeiras; e tudo o mais fica relegado a notas de rodapé.
Penso que o “feminismo” poderia ser compreendido em um sentido amplo, como todo gesto ou ação que resulte em protesto contra a opressão e a
discriminação da mulher, ou que exija a ampliação de seus direitos civis e políticos, seja por iniciativa individual, seja de grupo. Somente então será possível
valorizar os momentos iniciais desta luta – contra os preconceitos mais primários
e arraigados – e considerar aquelas mulheres, que se expuseram à incompreensão
e à crítica, nossas primeiras e legítimas feministas.
Considerando que essa história teve início nas primeiras décadas do século
XIX – o momento em que as mulheres despertam do “sono letárgico em que
jaziam”, segundo Mariana Coelho1 –, quero sugerir a existência de pelo menos
quatro momentos áureos na história do feminismo brasileiro2 . Longe de serem
estanques, tais momentos conservam uma movimentação natural em seu interior,
de fluxo e refluxo, e costumam, por isso, ser comparados a ondas, que começam
difusas e imperceptíveis e, aos poucos (ou de repente) se avolumam em direção
ao clímax – o instante de maior envergadura, para então refluir numa fase de
aparente calmaria, e novamente recomeçar.
As décadas em que esses momentos-onda teriam obtido maior visibilidade,
na minha avaliação, ou seja, em que estiveram mais próximos da concretização
de suas bandeiras, seriam em torno de 1830, 1870, 1920 e 1970. Foram necessá-
rios, portanto, cerca de cinqüenta anos entre uma e outra, com certeza ocupados
por um sem número de pequenas movimentações de mulheres, para permitir
que as forças se somassem e mais uma vez fossem capazes de romper as barreiras
da intolerância, e abrir novos espaços.3 Em cada um deles, identifico algumas
escritoras feministas, à guisa de ilustração.
Primeira onda: as primeiras letras
Quando começa o século XIX, as mulheres brasileiras, em sua grande maioria, viviam enclausuradas em antigos preconceitos e imersas numa rígida indigência cultural. Urgia levantar a primeira bandeira, que não podia ser outra senão o direito básico de aprender a ler e a escrever (então reservado ao sexo masculino).
A primeira legislação autorizando a abertura de escolas públicas femininas data
de 1827, e até então as opções eram uns poucos conventos, que guardavam as
meninas para o casamento, raras escolas particulares nas casas das professoras, ou
o ensino individualizado, todos se ocupando apenas com as prendas domésticas.
E foram aquelas primeiras (e poucas) mulheres que tiveram uma educação diferenciada, que tomaram para si a tarefa de estender as benesses do conhecimento
às demais companheiras, e abriram escolas, publicaram livros, enfrentaram a opinião corrente que dizia que mulher não necessitava saber ler nem escrever. Concordo com Zahidé Muzart quando afirma que
[...] no século XIX, as mulheres que escreveram, que desejaram viver da
pena, que desejaram ter uma profissão de escritoras, eram feministas, pois só
o desejo de sair do fechamento doméstico já indicava uma cabeça pensante e
um desejo de subversão. E eram ligadas à literatura. Então, na origem, a
literatura feminina no Brasil esteve ligada sempre a um feminismo incipiente4.
O nome que se destaca nesse momento é o de Nísia Floresta Brasileira
Augusta (1810-1885), nascida no Rio Grande do Norte, que residiu em Recife,
Porto Alegre e Rio de Janeiro, antes de se mudar para a Europa, e que teria sido
uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a
publicar textos em jornais da chamada “grande” imprensa. Seu primeiro livro,
intitulado Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, é também o
primeiro no Brasil a tratar do direito das mulheres à instrução e ao trabalho, e a
exigir que elas fossem consideradas inteligentes e merecedoras de respeito. Este
livro, inspirado principalmente em Mary Wollstonecraft (Nísia declarou ter feito
uma “tradução livre” de Vindications of the Rights of Woman), mas também nos
escritos de Poulain de la Barre, de Sophie, e nos famosos artigos da “Declaração
dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, de Olympe de Gouges, deve, ainda assim,
ser considerado o texto fundante do feminismo brasileiro, pois se trata de uma
nova escritura ainda que inspirado na leitura de outros. Pode também ser lido
como uma resposta brasileira ao texto inglês: nossa autora se colocando em pé de
igualdade com a Wollstonecraft e o pensamento europeu, e cumprindo o importante papel de elo entre as idéias estrangeiras e a realidade nacional.
Nísia Floresta identifica na herança cultural portuguesa a origem do preconceito no Brasil e ridiculariza a idéia dominante da superioridade masculina.
Homens e mulheres, afirma, “são diferentes no corpo, mas isto não significa
diferenças na alma”. Ou as desigualdades que resultam em inferioridade “vêm
da educação e circunstâncias de vida”, argumenta, antecipando a noção de gênero como uma construção sociocultural. Segundo a autora, os homens se beneficiavam com a opressão feminina, e somente o acesso à educação permitiria às
mulheres tomarem consciência de sua condição inferiorizada. São idéias suas:
Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir
nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. Tudo isto é admirável e mesmo um mul-
çumano não poderá avançar mais no meio de um serralho de escravas5 .
Nísia Floresta não realiza, insisto, uma tradução no sentido convencional
do texto da feminista, ou de outros escritores europeus, como muitos acreditaram. Na verdade, ela empreende uma espécie de antropofagia libertária: assimila
as concepções estrangeiras e devolve um produto pessoal, em que cada palavra é
vivida e os conceitos surgem extraídos da própria experiência6 .
E aqui está a marca diferenciadora deste momento histórico: a nossa primeira onda, mais que todas as outras, vem de fora, de além mar, não nasce entre
nós. E Nísia Floresta é importante principalmente por ter colocado em língua
portuguesa o clamor que vinha da Europa, e feito a tradução cultural das novas
idéias para o contexto nacional, pensando na mulher e na história brasileira. Ao
se apropriar do texto europeu para superá-lo, ela se insere numa importante
linhagem antropofágica da literatura brasileira, que desde Gregório de Matos
estava inaugurada. Na deglutição geral das idéias estrangeiras, era comum promover-se uma acomodação das mesmas ao cenário nacional, e é o que ela faz.
Tanto que o título de seu livro contém não apenas a idéia dos rights of woman,
mas também “a injustiça dos homens”.
No último capítulo de Direitos das mulheres e injustiça dos homens, encontra-se o desvio mais acentuado em relação aos originais europeus. Após longa
argumentação a respeito da capacidade e da superioridade femininas, Nísia termina dizendo que não tinha intenção de “revoltar pessoa alguma contra os homens”, e muito menos “transformar a ordem presente das coisas”. Ou seja: não
endossa a revolução proposta pelos pensadores, e sentia-se satisfeita em provar
que seu sexo “não é tão desprezível”, e que as mulheres eram “capazes de tanta
grandeza d’alma como os melhores desse sexo orgulhoso”. Esse recuo (que à
primeira vista poderia parecer uma contradição) merece ser analisado também
como estratégia e consciência da realidade. Afinal, o momento brasileiro impunha não o clamar por revoluções, mas por pequenas e necessárias mudanças no
comportamento masculino com relação à mulher. A autora revela (apesar de sua
pouca idade) ter consciência da defasagem cultural, social e política existente
entre a Europa e o Brasil. Enquanto lá as vindicações se faziam sob a forma de
crítica a uma educação já existente, aqui as solicitações eram ainda as primárias,
pois mesmo a alfabetização mais superficial esbarrava em toda sorte de preconceitos. Nossas mulheres precisavam, primeiro, ser consideradas seres pensantes,
para então, depois, pleitear a emancipação política7 .
E, em 1832, eram raras as mulheres brasileiras educadas e, em menor nú-
mero ainda, as escritoras. A mineira Beatriz Francisca de Assis Brandão (1779-
1860), e as gaúchas Clarinda da Costa Siqueira (1818-1867) e Delfina Benigna
da Cunha (1791-1857), eram algumas dessas exceções hoje conhecidas8 . Mesmo
entre os chamados “jornais femininos”, apenas existiam uns poucos periódicos
dirigidos por homens mais sensíveis às mudanças do comportamento social, e
que se apressavam em oferecer publicações especialmente pasteurizadas para o
público feminino9 .
Também em outros livros Nísia Floresta destaca o tema da educação, como
em Conselhos à minha filha (1842), A mulher (1859) e Opúsculo humanitário
(1853). Neste último, a autora revela o quanto conhecia da história da mulher
em diversos países, avalia as escolas femininas de seu tempo, e ainda expõe um
projeto educacional para tirar as mulheres da ignorância e da ociosidade. Nísia
defende que o progresso (ou o atraso) de uma sociedade deve ser avaliado pela
importância atribuída às mulheres, como também inúmeros filósofos e pensadores, o que vêm reiterar seu constante diálogo com o pensamento mais avançado
de seu tempo.
Anos depois, em Porto Alegre, uma jovem escritora, Ana Eurídice Eufrosina
de Barandas, publicava o livro A philosopha por amor (1845), que trazia, entre
contos e versos, uma pequena peça teatral a respeito das reivindicações femininas. Em sua argumentação, a personagem Mariana repete inúmeras idéias que se
encontram no primeiro livro de Nísia Floresta (por sinal reeditado em Porto
Alegre, em 1833), tais como a convicção na capacidade da mulher para exercer
cargos de comando, sua competência para estudar e o discernimento para opinar
sobre momentos importantes do país, no caso, a Revolução Farroupilha10 .
Apenas em meados do século XIX começam a surgir os primeiros jornais
dirigidos por mulheres. Os críticos chegam junto, considerando-a desde sempre
uma imprensa secundária, inconsistente e supérflua, pois destinava-se ao segundo sexo... Mas, ainda assim, veremos o quanto aquelas páginas artesanais lograram avançar em direção à construção da identidade feminina. Em 1852, o público leitor do Rio de Janeiro deve ter se surpreendido com o lançamento do Jornal
das senhoras, de Joana Paula Manso de Noronha, uma argentina radicada no Rio
de Janeiro. O editorial do primeiro número expõe o firme propósito de incentivar as mulheres a se ilustrarem e a buscarem um “melhoramento social e a emancipação moral”. Joana Manso acreditava na inteligência feminina e queria convencer a todos que “Deus deu à mulher uma alma e a fez igual ao homem e sua
companheira”. Para ela, a elite brasileira não podia ficar isolada “quando o mundo inteiro marcha ao progresso” e “tende ao aperfeiçoamento moral e material
da sociedade”. Como Nísia Floresta, Joana Manso também acusava os homens de
egoísmo por considerarem suas mulheres apenas como “crianças mimadas”, ou
“sua propriedade”, ou “bonecas” disponíveis ao prazer masculino. O pioneirismo
d”O jornal das senhoras, e suas colaboradoras tímidas e anônimas, representaram, ainda assim, um decisivo passo na longa trajetória das mulheres em direção
à superação de seus receios e conscientização de direitos.
Outra escritora importante foi Júlia de Albuquerque Sandy Aguiar, editora
de O belo sexo, publicado no Rio de Janeiro, em 1862. No primeiro número ela
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