quinta-feira, 7 de abril de 2016

POEMAS DE JACQUES ROUBAUD

MEDITAÇÃO DO DIA 12/05/85


Encontrei-me diante desse silêncio      inarticulado     um pouco
como a madeira     alguns   em momentos semelhantes
pensaram   decifrar em alguma remanência para
eles isso foi uma consolação        ou redobro do horror         não para mim.
Havia sangue espesso sob tua pele           em tua mão
derramado na ponta dos dedos           para mim não era humano.
Essa imagem se apresenta pela milésima vez        novamente
            com a mesma violência           ela não pode não se repetir
indefinidamente     uma nova geração de minhas células     se
houver tempo              encontrará essa duplicação onerosa     essas


tiragens fotográficas internas           

Nada no preto me influencia.
                Não me exercito a nenhuma comparação     não avanço
Nenhuma hipótese               afundo-me pelas unhas
Sou       em tempos       míope                  não podem dizer-me
   olha esse gramado          lá            dez anos antes               vá em sua direção
O olhar humano tem o poder de dar valor aos seres          isso os
torna mais caros.   não tenho escolha agora.

*


ASSIM QUE EU ME LEVANTO

Assim que eu me levanto (às quatro e meia, cinco horas), pego minha tigela na mesa da cozinha. Coloquei-a na véspera, para
não mexer muito na cozinha, para reduzir o ruído de meus movimentos.

Continuo fazendo assim, dia após dia, menos por hábito do que para recusar a morte de um hábito. Ficar em silêncio não tem mais a menor importância.

Ponho um fundo de café em pó, da marca ZAMA filtro, que compro em grandes vidros de 200 gramas no supermercado FRANPRIX, em frente ao metrô Saint-Paul. Pelo  mesmo peso, ele custa quase um terço a menos do que as marcas conhecidas, Nescafé, ou Maxwell. O próprio gosto é claramente um terço pior do que o 
nescafé mais grosseiro não liofilizado, que já não é lá essas coisas.

Encho minha tigela na torneira de água quente da pia.

Levo lentamente a tigela para a mesa, segurando-a entre minhas mãos que tremem o menos possível, e sento-me na cadeira da cozinha, de costas para a janela, em frente à geladeira e à porta, em frente ao sofá, feio e vazio, que está do outro lado da mesa.

Na superfície do líquido, arquipélagos de pó marrom tornam se ilhas negras bordadas de um lama cremosa que se afundam lentamente, horríveis.


Penso : 
<<E junto a paus a flux / o horrendo creme.>>

Não como nada, bebo apenas a grande tigela de água mais ou menos morna e
cafeinada. O líquido é um pouco amargo, um pouco caramelizado, pouco apetitoso.


Engulo-o e fico um momento imóvel olhando, no fundo da tigela, a mancha preta de um resto de pó mal dissolvido.